5. Mediocracy (clique aqui para baixar a música)
Esta música foi uma das poucas, senão a única canção
criada no estúdio de ensaios. Começamos a fazer “jams” com
alguns riffs, depois organizei as idéias em casa para finalizar a música. É uma
música bem pesada e esquisita, acredito até que
seja um pouco experimental. Na segunda vez que a ponte surge, colocamos
teclados sombrios e arranjos de orquestra.
O refrão é no mínimo nonsense, completamente alegre e com guitarrinhas fazendo melodias ao fundo. O mesmo se pode dizer do final da música, quando Loufa bate alucinadamente na bateria e acontecem duetos de guitarra com o clima “pra cima” que é característico do nosso som. Essa música é assumidamente esquisita e nonsense, mas acho legal, muito legal.
A letra:
Mediocracy
Selling more, left us blind
Commercial issues proving sinful lies
Killing more, killing time
Changing skins of shopping genocide
Dying more, for vanity
(Decisions of hideous) mediocrity
Our lives are based on
The media ghost of mediocracy
Somebody take your life
To beat or kill this dumb authority
Our judge is always fine
To hide within the false morality
Somebody take your life
To beat the ghost of mediocracy
Selling more,
Denigrated
Commercial issues sinking in their lies
Killing more,
Devil minded
Changing skins of politicians’ pride
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Em português:
Mediocracia
Vendem mais e nos deixam cegos
Interesses comerciais sustentando mentiras pecaminosas
Matando mais, passando o tempo
Mudando a pele em compras genocidas
Morrendo mais, por vaidade
(Decisões de uma chocante) mediocridade
Nossa vidas são fundadas no
Fantasma midiático da mediocracia
Alguém use a sua vida
Para derrotar ou matar essa autoridade estúpida
Nossa consciência está sempre bem
Para se esconder na falsa moralidade
Alguém use a sua vida
Para derrotar o fantasma da mediocracia
Vendendo mais,
difamado
Interesses comerciais se afundando em mentiras
Matando mais
diabólico
Mudando a pele do orgulho dos políticos |
Essa letra é altamente metafórica e resolvi fuçar no dicionário para escolher as palavras mais esquisitas. Já que se trata de uma música experimental, nada mais justo do que colocar uma letra complicada também. Mas, complicada não significa vazia e é por causa de músicas como essa que senti vontade de escrever esta “história por trás da música”.
“Mediocracy” é uma palavra que, inicialmente, eu achava que tinha criado. Eu quis juntar as palavras “Media” (Mídia) com “Democracy” (Democracia) para expressar em um só vocábulo, a sociedade que vivemos hoje. Nosso mundo, nossos pensamentos, nossas ações e nossos desejos são controlados pela vontade da mídia e mesmo as pessoas mais inteligentes, bem-informadas e sábias não escapam disso. A gente sabe das coisas através da televisão, do rádio, dos jornais... e esses meios de comunicação têm interesses políticos e econômicos.
Não é incomum que uma notícia seja deturpada porque o dono do jornal não quer que ela seja contada da maneira que aconteceu. Há um trâmite da informação nos meios de comunicação que obedecem uma hierarquia e o topo dessa pirâmide é sempre o mesmo: dinheiro. Mas, no fim das contas, não é preciso ser nenhum gênio para desvendar os mistérios da informação, basta entender o princípio básico que a informação é a coisa mais valiosa do mundo moderno porque mexe com a maneira de pensar e viver da população.
Vamos criar um cenário imaginário. Suponha que o Brasil esteja na beira de um colapso econômico. A única coisa que poderia salvar o país é uma grande safra de café que vai ser vendida para o Japão. Nesta venda, o Brasil ganharia milhões de dólares e muitos dos problemas atuais seriam resolvidos. Os produtores de café estão trabalhando duramente para conseguir produzir os grãos e entregar o produto no prazo estipulado.
Mas o Japão tem pressa, ele quer o café amanhã. O presidente sabe que a colheita ainda não está finalizada e, na verdade, nem sabe se terá condições de produzir a quantidade de café que o Japão encomendou. Além disso, há sempre o risco de pragas e intempéries que pode destruir boa parte da produção e inviabilizar o negócio. E o Japão sabe que é difícil que eles produzam toda essa quantidade no tempo estipulado, mas como o contrato de venda já está fechado, o problema seria do Brasil. O Japão está esperando o produto.
Então, o que o presidente faria? Anunciaria que a produção do café ainda estava em andamento e deixaria o país em risco? Ou usaria a mídia para criar uma espécie de “conforto social”? O desejo e o dever de um presidente, de um administrador é que o país seja próspero e que resolva os seus problemas. Ser sincero num governo nem sempre é a melhor opção.
Então, cria-se um fato midiático.
O presidente vai à televisão e anuncia, em horário nobre, durante o jornal nacional (ou da novela das 8) que o Brasil produziu a maior safra de café de toda a sua história e que ele não só terá condição de vender para o Japão, mas ainda sobrará café para vender para outros países. Nunca se teve um café de tão boa qualidade no Brasil e os produtores estão felizes e prometem uma safra ainda maior no ano que vem.
Então, essa notícia circula pelo mundo inteiro e chega no Japão que se vê muito mais tranquilo e feliz em pagar os milhões para o Brasil. O “conforto social” se instala, as pessoas ficam mais felizes e esperançosas, a economia aparentemente fica mais “saudável”, o “risco-brasil” cai e os outros países ficam impressionados com a competência dos nossos cafeicultores.
Só que, na verdade, isso é só um disfarce. Quem está arrancando os cabelos são os fazendeiros, os donos da plantação de café e o próprio presidente. Eles só ganharam um pouco mais de tempo e confiança, mas vão ter que se virar para produzir todo o café.
É um exemplo bastante simplista e resumido. Se essa situação fosse real, ainda existiriam uma série de variáveis que teriam que ser analisadas para se fazer um pronunciamento do presidente. Aliás, só o fato do presidente se pronunciar sobre este assunto já despertaria desconfiança. O fato seria investigado e a situação de “conforto social” poderia se inverter, caso se descobrisse que a produção de café não era suficiente para cumprir o contrato com o Japão.
Mas isso existe. E muito, muito mais do que possamos imaginar. Existe desde os tempos mais antigos e nas diversas áreas da nossa sociedade. Existe no mundo inteiro. E quem divulga tudo isso, quem filtra tudo isso é a mídia e por isso vivemos na democracia da mídia.
Na verdade, até a própria definição da democracia para esse vocábulo é irônica. A democracia da mídia não é democracia nem aqui nem na lua. É puro interesse, mentira e oportunismo. Às vezes, o objetivo é nobre, como esse exemplo do presidente que quer resolver o problema do país, mas na grande maioria dos casos o que importa é ganhar dinheiro e muita gente fica rica manipulando informação.
A palavra “Mediocracy” também remete à outra que combina perfeitamente com o sentido da democracia da mídia: “Mediocrity” que significa mediocridade. Depois fui pesquisar no dicionário e descobri que “Mediocracy”, assim como mediocracia são palavras que já existem e significam, literalmente: “um governo feito por pessoas medíocres”. O sentido então estava completo e com uma única palavra abrimos uma imensa gama de possibilidades semânticas e metafóricas. Toda a letra foi baseada nessa conceito e também na idéia do consumo exacerbado.
Depois dessa longa explicação, acho que seja mais fácil entender a letra. Mas queria falar se algumas frases específicas:
“Mudando a pele em compras genocidas”.
Pode ser uma mulher comprando casacos de pele, daqueles bichos que estão em extinção ou até mesmo cirurgias plásticas caríssimas em que as pessoas mudam absolutamente tudo.
“Morrendo mais, por vaidade”
Escrevi essa letra depois que lí a notícia de um cantor de uma banda pop famosa que ficou em coma devido à uma cirurgia de lipoaspiração. “Mudando a pele do orgulho dos políticos”
Eles são todos iguais, de fato o muda é somente a fachada, ou seja, a aparência física. Isso combina muito com a outra letra deste disco: Catering Rats.
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faixas retiradas do cd LIFECYCLES - 2006 |
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