1. Alltag (clique aqui para baixar a música)

Alltag começou a ser composta, como muitas músicas do Plexus, a partir do refrão. Bem, inicialmente não era exatamente um refrão, mas um riff que depois foi transformado em dueto. Eu gostava tanto daquele riff que resolvi colocá-lo como o refrão, já que considero esta parte a mais importante da música. Lembro que Iassa estava em minha casa quando mostrei pra ele o riff e a reação foi muito boa, típica de um sublime exemplar dos loufas (*): “Futrica, esse riff é demais!” - Exclamou Loufa, com seus olhos nórdicos brilhando, ao me ver tocar o riff, ainda de uma forma desengonçada.  “Vai ser o refrão, Loufa!” - Falei decidido, enquanto me esforçava para conseguir tocar o bordão em B e as notas da quinta corda. 

A forma da música é bastante inspirada em “Vortex”, a décima primeira música do disco “Cryptic Writings” do Megadeth. Esta música tem apenas 5 partes e salta da parte A direto para o refrão, não tem ponte. Depois da parte B, entram vários riffs doentios de Mustaine e por cima deles, Marty Friedman frita! A estrutura desta música é mais “rifforama” do que pop, porque as partes não se repetem muito e o final é no mínimo esquisito, me lembra um pouco o Rust in Peace, só que a música é mais curta. Pois então, Alltag também salta da parte A para o refrão, só que a parte A não se repete! Depois do refrão, criei outra progressão de acordes e joguei pro refrão de novo. Tenho que dizer que esta parte B foi bastante inspirada em Foo Fighters. Eles usam melodias grudentas em bases não tão comuns, acho que Alltag tem um pouco disso nas melodias vocais. Depois do segundo refrão, coloquei uma parte comprida de solos revezados entre mim e Jô Estrada. Tenho que destacar os solos de Jô nessa música, ele botou pra fuder! 

Sobre a letra, eu tinha a primeira intenção de escrever sobre rotina. Mas não consegui achar nenhum gancho que tornasse a letra minimamente interessante. Afinal, se rotina já é chata, imagine escrever sobre isso. Então pensei em como seria a rotina de um assassino, o que se passa na cabeça dele? Sua rotina é muito diferente da nossa? Para dar um ar extra de complicação decidi que deveria cantar o refrão em alemão. O motivo? Desafio. Na primeira vez que falei isso pra o nosso produtor, André t, ele me indicou um filme para inspiração: “M”. Este é um filme alemão de Fritz Lang que foi lançado em 1931. Conta a história de um cara que é falsamente acusado de assassinato e de repente se vê perseguido pela cidade inteira, já que a polícia não consegue capturá-lo. 


A letra então ficou assim:

Alltag

I hide your body in my lunacy
Please stop bleeding on the row
Stay one step behind of this yellow line
Don’t rush your fatal screaming, insane

Stolz und Angst
Das ist mein Alltag, mein Alltag
Das Grab ist zu klein
und jeder tote Tag passt nicht darein

Fatal is to live without a clue
Of how good death should be
Let my endeavors fulfill your 
enjoyment of leaving earthly surroundings

Devidamente traduzida e interpretada para o português: 

Rotina

Eu escondo o seu corpo em minha insanidade
Para de sangrar na fila
Fique a um passo da linha amarela
Não se apresse em dar o grito fatal

Orgulho e medo
Essa é minha rotina, minha rotina
A cova é muito pequena
E o meu “dia morto” não cabe nela

É fatal viver sem ter idéia
Do quão boa a morte deve ser
Deixe as minhas tarefas cumprirem 
com a sua vontade de deixar o ambiente terrestre


Na primeira parte da letra o assassino em questão fala de sua vida. “Pare de sangrar na fila” é uma imagem que me veio, quando imaginei um assassino super-famoso, um rockstar das mortes e uma fila de pessoas que queriam ser assassinadas por ele. É um cara bem sucedido profissionalmente, por isso as pessoas têm que ter paciência e esperar nessa fila gigantesca a sua oportunidade de ser morta pelo nosso assassino em questão. As outras frases complementam essa idéia de superioridade do assassino e do “favor” que ele está fazendo para as pessoas. Afinal, qualquer trabalho precisa de um pouco de organização, não é mesmo? O refrão é uma reflexão mais profunda sobre a personalidade do nosso rockstar sangrento. O “dia morto” é uma metáfora aos corpos das pessoas que ele mata a cada dia. 

A última parte é uma reflexão do própria assassino sobre a morte. Afinal, como podemos dizer que ela é tão ruim se não podemos vivenciá-la? Vivenciar a morte talvez seja o maior dos paradoxos, mas até que nós fazemos isso, quando sofremos ou quando refletimos sobre a morte das outras pessoas. No final, o nosso assassino milionário e bem-sucedido vende o seu peixe e convida as pessoas a serem mortas por ele. Alguém tem que comprar o leite das crianças! Queria salientar, com um pouco de felicidade e já suando só em lembrar daquela época, que foi absurdamente difícil escrever este refrão em alemão. Em primeiro lugar, a língua é dura demais pra soar bem num refrão tão melódico. Depois, as palavras precisavam ser bonitas e sonoras e eu queria fechar um sentido bastante específico para este refrão. Muitas vezes quando escrevo uma letra, preciso fazer uma escolha difícil entre fazer sentido e soar bem. Às vezes, a palavra faz muito sentido e deixa a letra redondinha, mas é uma palavra feia que simplesmente não combina com o som da frase. No extremo oposto, temos palavras belíssimas que não acrescentam nada de interessante na letra em questão. Um exemplo disso é nesta mesma música, na frase “Don’t rush your fatal screaming, insane”. A última palavra só serve para fechar a métrica da frase e completar a melodia da voz, preparando o ouvinte para o refrão. Ela atrapalha o sentido da frase, mas eu precisava escolher entre o som e o sentido. Escolhi o som. 

A composição do refrão de Alltag levou 2 meses e precisei da ajuda de Patricia Sojka e das minhas professoras no Goethe Institut para fazer tudo funcionar corretamente. No fim, eu ainda tinha a preocupação em gravar estas linhas com a pronúncia correta, o que deu bastante trabalho. Mesmo num país como a Alemanha, há diversos pronúncias diferentes para algumas palavras. O “ich” pode soar como “ish”, de maneira suave ou como “irr” que é um som um pouco mais fechado e gutural. Isso funciona em palavras terminadas em “zig” também. Zwanzig (em português, o número vinte) pode ser pronunciado como “tsvantsic” ou “tsvantsish”. Escolhi falar com “ish” no final, porque soa mais doce e mais bonito para mim. Isso porque só conheço essas duas maneiras de pronunciar, ainda existe o alemão da Suíça, da Áustria... 

Ainda no final da última frase, a palavra “darein” deveria ser pronunciada corretamente como “darrh ein”. Há uma pausa sutil entre essas duas sílabas e eu preciso emitir um som parecido com o “r” francês de “Etre”. Um “r” gutural, aquele que mais atrapalha as pessoas que querem começar a falar francês. Na música, se eu falasse dessa maneira, iria soar muito, muito mal. Por isso acabei escolhendo o “r” semelhante à “panorama” (pronúncia em português). Não é a maneira correta da pronunciar, mas achei que estaria sendo demasiadamente cri-cri em me atentar pra este detalhe, no fim, nós somos uma banda e não um maldito dicionário de Alemão.  Queria também destacar o trabalho de Loufa e Ricardo nesta música. Gostei muito de como a cozinha se desenrola em Alltag. Loufa como sempre acentuou cada riff e passagem da canção. No fim, acho que ficou uma música muito interessante. Ela é pesada, melódica e alegre, mesmo com um texto bastante sombrio e esquisito. Essa dualidade “texto estranho/música alegre” aparece com muita frequência no trabalho do Plexus. Acho que é uma música bastante representativa do nosso estilo, em todos os sentidos. 

(*) - Os Loufas são mamíferos de grande porte que habitam as regiões mais ensolaradas da Bahia. Se alimentam de pequenos roedores, queijo, batatas fritas e carne assada. Mas, depois que descobriram a coca-cola, nunca mais se contentaram em passar um único dia sem beber o líquido negro. Os Loufas chegam a consumir 4 litros de coca-cola por dia e preferem as garrafas com rótulo branco.

“O gás é melhor” - argumentaria um loufa, ao ser questionado sobre a sua preferência de garrafas de coca-cola.

“Coca-cola de máquina tem gosto de xarope” - seria uma outra frase típica dos loufas. 

Os Loufas migram durante o inverno, em busca de alimento, abrigo e conexões mais rápidas de Internet. Apesar de seu tamanho, os Loufas conseguem voar perfeitamente. Suas asas batem rapidamente, como um beija-flor e são os únicos mamíferos do mundo que voam e ainda conseguem ficar parados no ar. Loufas produzem sons bastante complexos ao se depararem com tambores que são construídos com madeira e pele de animais. Há uma grande admiração dos Loufas por pratos pequenos, que produzem sons de sino. Os Loufas colecionam este tipo de coisa. 

Loufas também são animais muito fiéis, desde que não se pise no calo deles. São animais adorados por todos. 


1. Alltag [por Iassa]

Essa me foi apresentada da forma como Futrica relatou. Estávamos na minha casa brincando com a guitarra e o amp, que não podia sair do volume 0,5 ou o prédio desmoronava. Foi aí que ele me mostrou o riff do refrão. O riff era muito bom e imediatamente eu comecei imaginar a bateria, dois bumbos tinham que estar ali comendo no centro, tinha que ter. Eu fiquei muito empolgado e queria ensaiar logo ela, mas só tinha “aquilo”.

Depois desta primeira ouvida eu não conseguia tirar o riff da cabeça e quando sentei para estudar, coloquei em prática o que tinha imaginado na casa dele e gostei muito do resultado. Claro que era como eu ouvia e me lembrava do riff naquele primeiro momento. A batida em si é muito simples, uma levada com bumbo duplo marcando o bordão da guitarra e caixa acentuando a acentuação da guitarra. Foi divertido brincar com isso, ficava criando várias notas fora da cabeça do tempo no ride e nos splashs, e era legal para estudar. Demorou um bom tempo até Marcelo mandar o CD com a música pronta.

faixas retiradas do cd LIFECYCLES - 2006
h o m e       b a n d a       d i s c o g r a f i a        d o w n l o a d s       c o n t a t o        i m p r e n s a         m e m ó r i a s